Caderno Fomento 27 de janeiro de 2010
Fonte: ANFAC

Mesmo durante um ano de crise a crise, as operações de crédito do sistema financeiro nacional tiveram uma expansão de dois dígitos, 14,9%, a um saldo de R$ 1,410 trilhão, ante crescimento de 31% em 2008. O grande destaque da alta foi o crédito imobiliário, tanto na pessoa física como na jurídica.
Esse tipo de financiamento teve expansão anualizada de 40,6%, a um saldo de R$ 88,9 bilhões, entre pessoas físicas e jurídicas, que, apesar de ainda pouco representativo, chegando a 3% do Produto Interno Bruto Nacional (PIB), é a linha em que se espera um maior crescimento, podendo chegar a dois dígitos do PIB em um prazo de cinco anos.
O crédito à pessoa física, motor da alta nas operações no ano, teve uma alta de 17,4% em 12 meses, a saldo de R$ 319,859 bilhões. Em dezembro, em relação a novembro, a alta foi de 0,5%.
Na pessoa jurídica, o crescimento foi de 1,1% em 12 meses, a saldo de R$ 396,008 bilhões. Em dezembro, o crescimento foi de 0,3%. Nesse segmento, o financiamento habitacional também teve papel de destaque, com alta de 29,4%, a um estoque total de R$ 2,281 bilhões. Essa modalidade, junto com capital de giro (alta de 26,2%) e desconto de duplicata (8,4%), foram as únicas que registraram alta no período de 12 meses, até dezembro do ano passado. O destaque negativo fica por conta das linhas para comércio exterior. Adiantamento de Contrato de Câmbio (ACC), Repasses Externos e Financiamento de importações caíram, respectivamente, 30,4%, 58% e 32,4%, em relação a dezembro de 2008, a estoques totais de R$ 30,119 bilhões, R$ 11,968 bilhões e R$ 12,884, pela ordem.
As operações destinadas à indústria cresceram 0,6% em dezembro. O setor detém R$ 304,6 bilhões do estoque. O crédito tomado pelo setor outros serviços cresceu 3,7% e dispõe de R$ 246,2 bilhões. O comércio expandiu 2,1% em operações contratadas e detém R$ 136 7%. O setor habitacional evoluiu 2,5% e tomou R$ 89 bilhões. Único segmento com declínio na tomada de empréstimos no mês, de 0,5%, foi a agroindústria, cujo estoque de créditos é de R$ 112,4 bilhões.
De acordo com o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, a evolução dos empréstimos para empresas em dezembro foi sustentada, em grande parte, pelo desempenho dos financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com foco na expansão do crédito. As pessoas físicas, por sua vez, tomaram menos financiamentos no mês passado, por conta do décimo terceiro salário.
Juros
A taxa média cobrada no ano passado, que chegou a 34,3% no mês de dezembro, foi a mais baixa desde dezembro de 2007, de acordo com o BC. Segundo o relatório preparado pelo Departamento Econômico do banco, o spread bancário (diferença entre a taxa que o banco paga na aplicação do cliente e a taxa cobrada na concessão de empréstimo) também recuou 0,8 ponto percentual no mês passado, situando-se na média de 24,3%. No ano a queda total foi de 6,4 pontos percentuais.
As taxas de juros das operações com pessoa física recuaram de forma mais significativa, ao longo do ano passado, do que nas contratações com pessoas jurídicas reflexo do comportamento das taxas de inadimplência nos dois segmentos. O custo médio para as famílias caiu 15,2 pontos percentuais no ano e fechou 2009 no patamar de 42,7% ao ano, menor nível da série histórica iniciada em 1994. Nos empréstimos para empresas, a taxa média de juros recuou 5,2 pontos percentuais ao longo de 2009 e chegou a 25,5% ao ano no mês passado.
O professor de Finanças da Brazilian Business School (BBS), Ricardo Torres, acredita que apesar de ainda haver espaço para baixa, tanto os juros como o spread devem entrar em um patamar de estabilidade para posteriormente voltar a subir.
Segundo ele, "o ano começou com algumas mudanças no horizonte internacional", com nações como Estados Unidos e Inglaterra buscando regular a atuação dos agentes financeiros e a China, com o temor de se criar uma bolha de consumo, passar a dificultar o acesso ao crédito. "Há uma névoa sobre a possibilidade de os indicadores continuarem caindo", diz.
Nesse cenário, Torres acredita na possibilidade de uma redução no crédito no início do ano, para depois voltar a subir.
Já o professor de Economia da Trevisan Escola de Negócios, Alcides Leite, acredita na possibilidade de os indicadores continuarem em baixa. "Há uma margem para spread e juros continuar em baixa, uma vez que não foram repassadas todas as quedas na Selic". Para ele, a medida que a Selic voltar a subir, os juros devem crescer novamente. "No entanto, isso deve acontecer por volta do segundo semestre, há um tempo para que continuem as baixas".
Ainda segundo ele, a expansão dos juros neste ano deve chegar a próximo de 50% do PIB, ante representatividade atual de 45%.